Poderia me descrever em vários versos que não são meus. Em
poemas de grandes poetas e canções dos mais diversos artistas. Passaria horas
na bossa nova, dançaria um samba canção ou até mesmo um tango argentino.
Flutuaria em filmes paradoxalmente, sairia de um Tarantino direto para uma
comédia do Woody Allen e viveria um doce e melancólico romance do Almodóvar. E
aí, quem sou eu?
Posso ser a Capitu sem seu Bentinho, viajo até a Paris antiga
e sou Marguerite Gautie enlouquecendo o pobre estudante Armand Duval. Vou mais distante, e no lugar de ser a Psiquê
que corre todos os riscos impostos por Afrodite, sou a Perséfone. Costumo gostar
em alguns momentos do escuro que só Hades oferece.
Agora retorno para o ano de 2013, paro na frente do meu
espelho. Objeto que já foi mágico nos tempos que brincava de Alice Através do
Espelho. Hoje não vejo mais nenhum coelho e Rainha de Copas não passa de um dia
cinza. Porém, os dragões ainda existem. Eles continuam sendo temidos e o
Chapeleiro Maluco já não segura a minha mão.
Corro e volto para realidade, do meu lado um cobertor bem
quente me aquece do frio da minha memória que só Brás Cubas entenderia. No meio da bagunça mental, retorno ao meu
reflexo. Quem sou eu?