quarta-feira, 28 de novembro de 2012

"A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela."



Prometeu nunca mais ficar feliz com sorrisos, aliás, não queria enxergar o mundo do jeito dela. Não iria viver na pele cada verso de um poema. Viajar em cada letra das canções compostas pelo Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Cartola ou Noel Rosa : Nunca mais! Gritava ela em pensamento.

Estava cansada de se jogar em mundo que não existia. Um universo criado, vivido, sentido, apenas por ela. “Não, não, isso não quero mais!”, insistia para a mente e o coração. Talvez estivesse mentindo para toda a sua essência, mas estava em seu direito. Mudar, para  tentar ser igual a multidão.
Era triste viver daquele jeito. Conseguia enxergar sensações além do que os ouvidos são capazes de escutar. Era como se os cinco sentidos tivessem o dom de traduzir cada coisa para a alma.  Abdicar-se disso seria a melhor opção para se adequar  as pessoas e deixar de sofrer com sentimentos invisíveis.
Planejou tudo, traçou metas e fez a promessa de cumprir cada item da lista imaginária. 

*Quando acordar é importante não observar a cor do céu. Tanto faz se é azul, cinza ou laranjado. O dia será o mesmo. 

* Não olhar para os olhos da gata. É apenas um bichinho. No fundo aquele olhar não é de puro amor, paixão e alegria por ver a dona acordar. Tudo é coisa da imaginação. Bicho não tem o dom de ter tanto sentimento. Vou alimentá-la e fazer um cafuné, só isso.

* Não é necessário escolher uma música para embalar a rotina. É apenas uma canção. Melhor mesmo é sintonizar em uma rádio qualquer. Talvez recorrer ao funk seja a solução. 

*Roupas não são armaduras. Não existe dragão diário. As vestes são apenas um adorno necessário para sair de casa.

*É permitido saborear o café, mas saiba que ele apenas serve para mantê-la acordada. Pedir, pensar, desejar seis coisas impossíveis nesse momento, é desnecessário.  Coisas IMPOSSÍVEIS não se concretizam.  Favor enxergar a realidade!

*O Chico Buarque é apenas um bom cantor. Ele não fez músicas para serem vividas como romances. Viver essas emoções é surreal. E cá entre nós, Salvador Dalí já se foi a muito tempo. 

*Ops, o trecho de cima ajuda neste. As obras de arte são lindas e encantadoras, mas elas não exalam poesia. São pinturas e não poemas!

*Ops,2. O romantismo existe no papel. Os bons poemas, as poesias ou os livros de romances servem apenas para uma leitura leve. Os personagens não existem! Não tente sentir as emoções, os sentimentos dos personagens. A sua vida é diferente disso tudo. Beleza?!

*O sorriso de um estranho é apenas um cumprimento. Se uma criança sorrir, ela está apenas aprendendo a arte da comunicação.

*Não observe os pássaros, flores, árvores e não sinta o cheiro da terra molhada. Tudo isso só compõe a paisagem. Sem poesia, por favor!

*Não existe um mundo mágico por trás de cada pessoa no caminho. Todos vivem no mesmo universo, que por sinal, é único.

*Pronto. Leia isso todos os dias ao acordar e antes de dormir. Assim os dias serão normais e o mundo apenas um local comum.

Após alguns meses praticando item por item e  lutando contra as sensações que iam além do corpo físico, acordou normal, igual a maioria da humanidade. Os sonhos se transformaram em metas e objetivos possíveis. Enxergava apenas o que os olhos mostravam. A pele não sentia energia do dia, das pessoas, dos bichos e das plantas.  Sim, ela se transformou em alguém comum, vivendo uma vida em um lugar qualquer.
Foi a óbito depois de um ano. Na lápide a seguinte informação: Aqui jaz uma rosa que dançava como borboleta . Com sorriso iluminado pelo sol, nos dias de chuva se transformava em arco-íris. Morreu por abstinência de poemas, canções e romances. Vestiu as suas asas de anjos e partiu em direção as estrelas do céu.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Além dos olhos


 Tudo levava a crer que era mais um dia comum. O cheiro que vinha da janela era o mesmo, o de terra molhada, normal para a época chuvosa do ano. Levantou, tentou não ficar tentada pela cama quentinha, tomou um banho, alimentou e acariciou a gata e deliciou-se com um rápido gole de café.
Como o normal, costumava sair corrida, já que sempre se atrasava observando a cor do céu pela janela, o som dos pássaros que a convidava para mais um dia, ou simplesmente se rendia à carência felina do bichinho de estimação.
Driblar as horas, quando você observa além do que os cinco sentidos são capazes de demonstrar, é uma tarefa um tanto difícil. Ela se queixava disso sempre:  “Poderia apenas enxergar com os olhos. Por que a alma e o coração insistem nessa tarefa também? Por que o cheiro ofusca os pensamentos e causa sensações que arrepiam cada poro do corpo?” Todos os momentos ela se via no meio das emoções que nem todos conseguem perceber.  Tentava ser mais uma na multidão, mas sempre se frustrava. Como se o mundo dela fosse além daquela bolha diária criada por boa parte das pessoas.
Escolheu a roupa que serviria de armadura para mais um dia normal em seu universo. Calçou a sapatilha e pegou os livros. Precisava ir para aula, estava com muita pressa e o tempo acelerava a cada segundo, mais e mais. Na saída despediu-se da gata, abriu a porta. Ah, para sua surpresa a gatinha resolveu brincar de pega-pega no corredor. Livros e bolsas foram parar no chão. Pânico, tensão, aumentaram a correria  de um lado para outro, até o instante em que o animal, por vontade própria, entrou feliz em casa.
Passado o desespero, era hora de ir para parada. No pensamento desejava apenas que o ônibus tivesse atrasado alguns minutos. Talvez os bons anjos atenderam à prece. Conseguiu ir para o destino de todas as sextas-feiras pela manhã. Mais uma aula iria assistir, a última daquela matéria. 
No ônibus sentiu o doce cheiro das árvores, da pista encharcada e deixou se encantar pela brisa que entrava pela janela. Observou as pessoas no mesmo transporte público. Olhares tristes e egoístas, presas em seus problemas diários.  De longe, um pássaro, talvez uma gaivota, dançava mostrando  um espetáculo, onde o céu é um verdadeiro palco teatral.

Após alguns minutos de viagem desceu na parada, não a do destino. Precisava pegar outro ônibus até a faculdade. Como de costume, não só os seus olhos enxergavam, o coração viu um perigo invisível, o nariz sentiu um cheiro ácido, a pele fez o registro da dor. A alma procurou mostrar para as pupilas um rapaz que andava tranquilamente, mas com ajuda de um bastão. Alguém que não podia enxergar com a retina, mas todo o corpo daquele jovem trabalhava para ajudá-lo a ver o mundo.
Ela insistia em dizer aos sentidos que eles estavam errados, tudo parecia tranquilo.  Mas a alma e o coração ficaram inquietos, aceleraram as pernas. Como a se a moça não tivesse domínio do seu próprio corpo. Com um impulso se aproximou  rápido do rapaz. Então, a mão que já não era controlada por ela, puxou-o para a calçada. Em milésimos de segundos, salvou aquela pobre criatura dos carros que passavam na pista.
O nome do ser que sorri feliz com a atitude da moça, não era importante saber. Afinal, a bagagem de vida dele continua intacta.  Com uma áurea que iluminava o cinza do céu, ele agradeceu e só teve chance de dizer:  “Hoje o dia está bem movimentado. Que agitação é essa?”. Ela não soube explicar nada para aquele rapaz, apenas olhava, observava  com a alma carregada de certeza que ele enxergava mais que os motoristas de carros.  Muito mais que as pessoas que estavam no local. Ele também sentia a energia dos que estavam a sua volta, viu que tinha gente estressada, triste e rancorosa. Mas com um sorriso nos lábios e sem nenhuma palavra disse o quanto à moça era encantadora.  Ela agradeceu com outro sorriso, que ele enxergou com os olhos do coração.
Os dois pegaram o mesmo ônibus, mas com destinos diferentes. Ela desceu após duas quadras, precisava chegar logo na aula. Ele, só desceu 10 paradas depois. Nunca mais se encontraram, mas em uma sexta-feira nada comum, descobriram outras pessoas, embora poucas, que enxergam além dos olhos.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A queda de Ismália


E toda vez que o coração aperta e a dor se torna insuportável de conviver, ela fecha os olhos e se joga de sua torre imaginária.  A queda é sempre demorada. Ao cair lentamente às angústias vão se dissipando. A cada segundo que a gravidade insiste em puxar o seu corpo, as dores surgem mais fortes, como se quisessem mostrar a realidade que ela nunca desejou enxergar.

As lembranças do sofrimento fazem o corpo ficar mais pesado. Agora a queda que era apenas um suicídio mental se torna um pesar mais que real. Dessa maneira, morre junto com sua áurea de menina. Cai de olhos fechados para não enxergar os fantasmas que a acompanham nos segundos agonizantes da queda.

E, quando finalmente chega ao chão, todos os medos estão expostos como feridas e hematomas nascidos com o tombo. Mesmo caída no asfalto frio, tenta erguer-se, recupera o fôlego e abre os olhos.

Levanta-se coberta de sangue e colhe o pobre coração jogado no chão. Limpa o corpo com as lágrimas, que os olhos sem brilho choram.

Anda alguns passos e avista a torre, a mesma da qual se atirou. Segue em direção do ponto luminoso, é a referência de qual caminho deve seguir.

Então, ela volta a fazer o mesmo caminho, mas de maneira inversa. Encontra pessoas diferentes no percurso, enxerga ipês amarelos, arco-íris e um cavalheiro com rosas lindas nas mãos.

Pobre moça lembra-se do quanto é bela a subida, mas sempre se esquece da tristeza da queda.




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Primavera sem elas



 

Lá se vai mais um ano. Melhor: e começa uma nova primavera. Talvez depois de alguns anos longe da narrativa de todas as manhãs do 12 de outubro, já tivesse  me acostumado em acordar sem as duas vozes relatando passo a passo da minha chegada. Mas, ainda sinto falta das duas se estapeando em palavras, só pra ver quem contava com mais detalhes a história da menina do olhão.

Tenho saudades de saber que olhei de maneira analisadora  para cada pessoa do quarto. Gostaria de ser disputada em carinhos, dengos, bolos, doces, arroz grudadinho e café.
Gostaria de ouvir a voz quase  trêmula da minha mãe, ao lembrar que tinha medo de me perder.  Sinto falta dos dois olhares doces, quase parecido com maçã com canela que as duas lançavam pra mim. Olhavam, suspiravam fundo, sorriam e diziam quase em coro: a nossa Fadinha cresceu!

Então, após anos distante disso tudo, usando uma camisola de florzinha e uma meia rosa para esquentar a solidão. Olho para o lado e vejo apenas uma gata preta que exige carinho. Levanto e faço mais uma xícara de café... Paro, reflito por alguns segundos, volto o olhar pra gata. Sorrio e digo: como sou feliz por ser filha e neta das duas mulheres que mais amam a eterna menina do olhão.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Palavras que ganhei de presente






 Sabe o que é bom da vida? Ter amigos especiais e que te conhecem perfeitamente. Ah, ainda fazem o favor de deixar esse conhecimento como registro. 
Carol Rodrigues, obrigada pelas lindas e delicadas palavras. Queria retribuir a gentileza da melhor maneira possível, mas hoje faltou criatividade para tamanha demonstração de carinho.Amo você imensamente, adoro compartilhar as minhas loucuras, alegrias e os meus devaneios. Afinal, "A vida é dura, Charlie Brown!", mesmo a Lucy insistindo que "Todas as noivas são lindas, Charlie Brown!".


"No meio da bagunça de seus dias e dos seus pensamentos, ela repousa o corpo suavemente sobre os lençóis da cama. Tem ao lado sua felina negra de olhos amarelado e o aroma de cafeína misturado com algum perfume sensualmente adocicado impregna o ambiente.
Então, ela despe porque precisa se livrar do que a aperta, mesmo que sejam apenas as roupas. Na realidade o que lhe toca são os afagos dos pêlos da gata e o vento que entra sorrateiro pela abertura da janela.  Fecha os olhos, porque na sua fantasia tudo acontece. Projeta toques registrados na pele como se tivessem acabado de acontecer, umedece a boca e a língua percorre os lábios, enquanto ela se recorda da avidez da especificidade daquele beijo.
Sente o coração descompassado ao entreabrir os olhos e se deparar com a realidade. Volta para seu mundo paralelo e sente o coração acelerar ao entrar no turbilhão confuso em  saber o que é lembrança e o que é sentimento.
 A dor incomoda tanto que a obriga a deixar seus lençóis. Passa a mão sobre os poros e suspira demoradamente. Passa pelo espelho e seu reflexo mentiroso, deturpado pela confusão dos seus devaneios. Em frente dele há um corpo sinuoso, com curvas pecaminosamente delineadas e sensualidade exalada na carne da pele macia.
No movimento romântico de seu corpo, examina com minúcia o que só seus olhos enxergam. A ausência da sua beleza nítida. O espelho mentiroso lhe rouba o brilho nos olhos e a jovialidade de seus traços. O charme da intensidade de suas feições. Insiste em transpor o cansaço mental latente e a preguiça de viver os dias sem paixão.
Suspira novamente e puxa o ar como o trago de um cigarro aromático ao pensar em paixão, ri com deboche da existência do ar. Pensa na morte, nas milhares de alternativas e a deseja ironicamente o seu fim. Quer o glamour de simplesmente não existir para suas aflições. Contudo, se contenta ao ouvir um miado dengoso, à complexidade da sua existência e a necessidade dos que a amam de tê-la por perto. Sente frio e quer ser abraçada... Não pelas linhas grossas do seu cobertor ou pelo aconchego de seu travesseiro, mas pelo côncavo tépido dos braços daquele que lhe atormenta o sonho.  E que levou embora o coração e a magia do seu conto de fadas. Sabe que a vida continua e mesmo que ela não lhe traga alento,  ainda enfeita, enfeitiça, arranca suspiros e povoa a fantasia que não cabe a ela saber, apenas incitar..."
                                                               
                                                                                                             (Carol Rodrigues)
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Refém



Tudo continua na mesma bagunça. Cama, armários, estante, livros, sapatos, a vida. E, ela só sonha em manter o equilíbrio no velho salto de sempre.
Acorda para rotina diária, mas não pra vida. Vive no além, onde ninguém consegue chegar. Segue sozinha, acorrentada a tantos medos e receios.
Mora em uma prisão criada por ela. Cercada por fantasmas, monstros e dramas, que somente a estranha menina enxerga.
Talvez ela espera ser libertada, mas por quem? E como ajudar? Ela escondeu as chaves da cela, no meio da bagunça mental esqueceu-se do esconderijo.
Ela não tem mais força, são correntes grossas, que arrasta todos os longos dias.
Todos olham a garota por fora. Enquanto o exterior sorrir, o interior chora.

Desaba todos instantes em um vale frio de lágrimas.
A doce menina já não acredita o quanto pode ser livre. Não encontra força para andar. O salto alto que outrora era charmoso, agora é desagradável. Dói, aperta, machuca.

Ela se arrasta em mais um dia... Suspiros, angústias, tantos receios, que só ela pode sentir.
Ao terminar o dia, a garota respira fundo, fecha os olhos e deseja só uma coisa: sonhar com a fórmula mágica de se livrar do pesadelo real.
Ingênua, não percebe que, quando dorme ela vive e ao acordar ela morre.