Lá se vai mais um ano. Melhor: e começa uma nova primavera. Talvez depois de alguns anos longe da narrativa de todas as manhãs do 12 de
outubro, já tivesse me acostumado em
acordar sem as duas vozes relatando passo a passo da minha chegada. Mas, ainda
sinto falta das duas se estapeando em palavras, só pra ver quem contava com
mais detalhes a história da menina do olhão.
Tenho saudades de saber que olhei de maneira
analisadora para cada pessoa do quarto.
Gostaria de ser disputada em carinhos, dengos, bolos, doces, arroz grudadinho e
café.
Gostaria de ouvir a voz quase trêmula da minha mãe, ao lembrar que tinha
medo de me perder. Sinto falta dos
dois olhares doces, quase parecido com maçã com canela que as duas lançavam pra
mim. Olhavam, suspiravam fundo, sorriam e diziam quase em coro: a nossa Fadinha
cresceu!
Então, após anos distante disso tudo, usando uma camisola de
florzinha e uma meia rosa para esquentar a solidão. Olho para o lado e vejo
apenas uma gata preta que exige carinho. Levanto e faço mais uma xícara de
café... Paro, reflito por alguns segundos, volto o olhar pra gata. Sorrio e
digo: como sou feliz por ser filha e neta das duas mulheres que mais amam a
eterna menina do olhão.

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