segunda-feira, 3 de junho de 2013

A cobrança de Cronos



A intensidade em que os dias seguem
rouba-me os sentidos
Não apenas os cinco,
mas o meu sexto sentindo também é vencido pelo tempo
Não ouço, não falo, não vejo
Sigo a velejar nesse encontro do rio com o mar
E diante da pororoca,
Temo não saber onde a vida parar
Tudo cansa e pesa diante da pressa
Sigo sem os pés no chão,
Falta tempo para aprender a andar
Flutuo entre mundos desconhecidos
Em cada rosto encontro histórias que sonho relatar
Falta-me o tempo,
O ponteiro do relógio acelera
Já não faz sintonia com as batidas do coração
Em um tic-tac solitário 
O deus do tempo vem apressar
Rouba os dias, arrasta as noites...
Imploro pelo último sonho
E ele sufoca feito um assassino sem piedade o meu último suspiro
Cai o último grão da ampulheta
Foi-se a vida...








                                           "Tem tanta calçada pra se caminhar"

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O sopro da vida




Tão leve, tão suave é essa brisa
Ela chega de forma delicada,
Dança em volta do meu frágil corpo
Sopra devagar, receia meu desmanchar
Envolve a minha pele para esquentar a minha alma
Oh, brisa! Se tu és o sopro da vida,
Por que não me tomas com mais fervor?
Quanto cuidado para tocar em meu ser!
Mais forte! Mais forte! Eu insistia.
E a sábia brisa balançava de leve os meus cabelos
Coube a ela amenizar os danos da vida.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ne me quitte pas





Ne me quitte pas em um dia de chuva
Ne me quitte pas quando nossos corpos cansados de tanto amar
Contemplam o primeiro raio de luz que invade a janela do quarto
Ne me quitte pas quando a sua mão toca cada parte minha como se já fosse sua.
E nós dois cegos de desejos lemos em Braille os centímetros das nossas peles
Ne me quitte pas quando em meio aos devaneios, delírios da nossa febre fazemos juras eternas e prometemos mais que a nossa pobre vida pode cumprir
Ne me quitte pas no pôr-do-sol de uma praia que sonhamos ser só nossa
E ali nos amamos, prometemos unir os nossos sonhos
Sem ao menos saber do amanhã
Ne me quitte pas quando o mar for a única testemunha do nosso prazer
Ne me quitte pas quando a realidade bater à nossa porta e insistir que a poesia já não entrelaça
e confunde as nossas pernas
Ne me quitte pas no momento em que bebo uma xícara de café à luz de um abajur
e me embriago na solidão noturna
Ne me quitte pas...

terça-feira, 7 de maio de 2013

Faz de conta...




Hoje quero que você tire do fundo do armário o vestido de baile
Escolha um personagem: princesa, fada, bruxa...
Você pode tudo, menina!
Quero os seus cabelos seduzindo o vento
Vai menina, pega a sandália de prata
Sambe, valse, aprenda o tango da vida
Enfeite-se de azaléias e camélias
Permita-se sorrir com olhos, os lábios, com o seu frágil corpo
Vem menina, vamos rodopiar feitos pião no chão
Vamos colorir o céu como dois balões vermelhos
Quero você entrelaçando o doce olhar com a paisagem
Foge menina, vai buscar a alegria que existe além do arco-íris
Vai menina, hoje o dia será um sonho eterno
Voa, voa menina! Abuse das asas de fada
Use a magia e faça da vida um faz de conta
Hoje é permitido sentir com a alma
Olhos fechados para a história que vamos criar
Era uma vez, menina....

terça-feira, 2 de abril de 2013

Um amor feito de eclipse




Foram amantes antes mesmo do primeiro beijo.
Sussurram eu te amo calorosos a quilômetros de distância.
 As declarações eram ouvidas por terra, céu e mar.
Permitiram o enroscar de seus corpos através de pensamentos maliciosos e cheios de desejos.
Associavam canções, poemas, contos, romances à história de amor que permitiriam escrever.
O tempo já vivido de um e os segundos que o outro iniciava na vida não eram problema.
Ajustaram os ponteiros de seus relógios e criaram uma nova era.
Bom dias manhosos despertavam as manhãs e diminuíam a distância.
Ela era brilhante, fascinante, cheia de cores como o dia.
Ele, os anos de vida o fizeram noite.
Às vezes igual a um céu repleto de estrelas ou apenas como a solidão do luar.
No meio da sintonia, do elo que criaram prometeram, juraram amor eterno, mesmo duvidando do amanhã.
E um dia o eclipse solar  aconteceu:  a noite abraçou o dia.
Beijaram-se no momento em que a lua entrelaçava o sol.
 O céu tornou-se um espetáculo divino. Os pássaros pararam diante de tamanho encanto
Coisas que só o amor pode fazer...
Mas nem o mais forte e mais perfeito dos sentimentos pode paralisar o tempo
Nem os deuses poderiam ajudar e imortalizar a paixão do dia pela noite.
Amaram-se por longos minutos, mas aos poucos a lua foi distanciando do sol
O fenômeno magistral, divino do eclipse oculto voltou a ser um dia comum e mais tarde uma noite qualquer

quarta-feira, 20 de março de 2013

A vida que não desejou



Acordou de um sonho aterrorizador, suava muito e o coração palpitava mais que o normal. Olhou para o relógio, exatamente 4h45 da manhã. Tentou fazer alguma relação com o horário, sempre a insônia aparecia na mesma hora marcada, era mais pontual que os compromissos diários. E nesses momentos a mente resgatava recordações e promessas do passado, do tempo em que era criança e os sonhos povoam a mente.

Fez uma lista imaginária dos itens que não tinha alcançado. Não realizou nada de tudo que havia planejado. Seguia a profissão que não sonhou, morava na cidade não idealizada. Aliás, morar, se instalar em um só lugar, não,não ela nunca quis isso. Tinha sonhando em viajar por várias cidades, conhecer diversas culturas, as mais diferentes pessoas. No entanto, a vida se apresentou de outra forma, permitiu que ela conhecesse apenas três cidades: a que ela nasceu, a da adolescência e a da vida adulta.

Utilizou a mente para viajar alguns anos atrás, quando era uma criança e a física preenchia os dias. Lembrou-se dos nomes de todos os cientistas que pesquisou, da admiração por aqueles seres tão inteligentes, fora dos padrões medíocres de QI.

Da janela do quarto o vento chegou com um forte barulho, assustou e desejou que fosse o fim do mundo se aproximando. Quem sabe assim as memórias eram levadas para todo o sempre e a tortura mental acabava. Desejava colocar um ponto final em toda aquela angústia, mas tinha criado um parêntese gigante entre os sonhos e a realidade. Todas as madrugadas quando o sono partia as falhas, as derrotas, os sonhos não conquistados retornavam, invadiam o quarto, a mente e lhe roubavam a cada visita um pouco de sua esperança.

O tic-tac do relógio chamou atenção para olhar as horas novamente, 5h45 da manhã. Já tinha se passado uma hora de passeio em lugares perdidos com o tempo, mas presentes ainda nas lembranças. O sono tinha fugido por completo, não ia retornar mais. Precisava adormecer por pelo menos meia hora, assim poderia tentar enfrentar a realidade diária com um pouco mais de força.

Lá fora, no estacionamento do prédio surgiam os primeiros barulhos. Motores de carros começam a serem ligados, passos largos e pássaros cantando mostravam que o mundo continuava intacto. As pessoas iniciavam a rotina diária e seguiam rumo ao trabalho. Que vida, meu Deus, suspirou.

Seis horas da manhã, o sol agora iluminava tudo. Atravessava a cortina e clareava todo o cômodo. Junto com ele veio um choro de bebê do apartamento vizinho. O silêncio do horário permitiu que ela escutasse a voz doce de uma mãe que embalava a sua cria. Recordou do interior onde nasceu, lá às moças se tornam mães no auge dos 20 anos. De certa forma elas cumprem a missão imposta pela vida. Pensou nos relacionamentos amorosos que teve, poucos e nenhum muito longo, não o bastante para planejar uma criança. Sentiu o quanto era incapaz de lidar até mesmo com o amor. Mais um item para o livro de falhas.

Meia hora depois, levantou e foi até o banheiro. Ligou o chuveiro, escolheu a opção inverno mesmo sendo verão. O calor da estação não aquecia o frio do corpo, a alma permanecia congelada. Vinte minutos de banho não eram o bastante para acordar do pesadelo das lembranças. Enrolou-se na toalha e voltou para o quarto. Precisava escolher a roupa para enfrentar o dia. Escolheu um vestido preto, a cor estava ligada com áurea dela. Fria, sem vida e sem expectativas de algo melhor. Um verdadeiro luto interno. Prendeu os cabelos, calçou uma sapatilha, usou o mesmo perfume de sempre e abriu a porta. Estava pronta para mais um dia de uma vida que nunca sonhou.

     
                                       

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Com quantos poemas se faz uma vida?




Com quantas palavras do Drummond eu descreveria a minha, a nossa vida?
Seria necessário suspirar quantas vezes por uma estrofe do Pessoa?
De quais maneiras imaginárias morreria nos Olhos de cão Azul?
Quantas emoções necessárias para o Monólogo de Orfeu?
E quantas vezes eu precisaria catar a poesia entornada, jogada, pisada no chão para valer uma vida?
Mas a vida vale mesmo todos os versos do coração em desalinho do Poetinha?
Essa mesma vida vale um fim de tarde com as garças do Manoel de Barros?
Irá valer os encantos mágicos do Guimarães Rosa?
Ah, pobre Garrett se soubesse como a ausência dos sinais vitais me fazem sonhar mais que o último suspiro da lembrança de um amor, de certo ele teria economizado palavras.
Não sei de quantos poemas se faz uma vida. Mas para a morte basta a falta de emoção diante do legado deixado por todos nossos esplêndidos poetas.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Quem sou eu?


 Poderia me descrever em vários versos que não são meus. Em poemas de grandes poetas e canções dos mais diversos artistas. Passaria horas na bossa nova, dançaria um samba canção ou até mesmo um tango argentino. 
Flutuaria em filmes paradoxalmente, sairia de um Tarantino direto para uma comédia do Woody Allen e viveria um doce e melancólico romance do Almodóvar. E aí, quem sou eu?
Posso ser a Capitu sem seu Bentinho, viajo até a Paris antiga e sou Marguerite Gautie enlouquecendo o pobre estudante Armand Duval.  Vou mais distante, e no lugar de ser a Psiquê que corre todos os riscos impostos por Afrodite, sou a Perséfone. Costumo gostar em alguns momentos do escuro que só Hades oferece.
Agora retorno para o ano de 2013, paro na frente do meu espelho. Objeto que já foi mágico nos tempos que brincava de Alice Através do Espelho. Hoje não vejo mais nenhum coelho e Rainha de Copas não passa de um dia cinza. Porém, os dragões ainda existem. Eles continuam sendo temidos e o Chapeleiro Maluco já não segura a minha mão. 

Corro e volto para realidade, do meu lado um cobertor bem quente me aquece do frio da minha memória que só Brás Cubas entenderia.  No meio da bagunça mental, retorno ao meu reflexo.  Quem sou eu?






   
Um pouco de uma baiana que canta bem a canção de um dos maiores baianos ( You don't know me - Caetano Veloso)