A intensidade em que os dias seguem rouba-me os sentidos Não apenas os cinco, mas o meu sexto sentindo também é vencido pelo tempo Não ouço, não falo, não vejo Sigo a velejar nesse encontro do rio com o mar E diante da pororoca, Temo não saber onde a vida parar Tudo cansa e pesa diante da pressa Sigo sem os pés no chão, Falta tempo para aprender a andar Flutuo entre mundos desconhecidos Em cada rosto encontro histórias que sonho relatar Falta-me o tempo, O ponteiro do relógio acelera Já não faz sintonia com as batidas do coração Em um tic-tac solitário O deus do tempo vem apressar Rouba os dias, arrasta as noites... Imploro pelo último sonho E ele sufoca feito um assassino sem piedade o meu último suspiro Cai o último grão da ampulheta Foi-se a vida...
Tão leve, tão suave é essa brisa Ela chega de forma delicada,
Dança em volta do meu frágil corpo Sopra devagar, receia meu desmanchar Envolve a minha pele para esquentar a minha alma Oh, brisa! Se tu és o sopro da vida, Por que não me tomas com mais fervor? Quanto cuidado para tocar em meu ser! Mais forte! Mais forte! Eu insistia. E a sábia brisa balançava de leve os meus cabelos Coube a ela amenizar os danos da vida.
Nemequittepas em um dia de chuva Nemequittepas quando nossos corpos cansados de tanto amar
Contemplam o primeiro raio de luz que invade a janela do quarto Nemequittepas quando a sua mão toca cada parte minha como se já fosse sua.
E nós dois cegos de desejos lemos em Braille os centímetros das nossas peles Nemequittepas
quando em meio aos devaneios, delírios da nossa febre fazemos juras
eternas e prometemos mais que a nossa pobre vida pode cumprir Nemequittepas no pôr-do-sol de uma praia que sonhamos ser só nossa
E ali nos amamos, prometemos unir os nossos sonhos
Sem ao menos saber do amanhã Nemequittepas quando o mar for a única testemunha do nosso prazer Nemequittepas quando a realidade bater à nossa porta e insistir que a poesia já não entrelaça
e confunde as nossas pernas Nemequittepas no momento em que bebo uma xícara de café à luz de um abajur
e me embriago na solidão noturna Nemequittepas...
Hoje quero que você tire do fundo do armário o vestido de baile
Escolha um personagem: princesa, fada, bruxa...
Você pode tudo, menina!
Quero os seus cabelos seduzindo o vento
Vai menina, pega a sandália de prata
Sambe, valse, aprenda o tango da vida
Enfeite-se de azaléias e camélias
Permita-se sorrir com olhos, os lábios, com o seu frágil corpo
Vem menina, vamos rodopiar feitos pião no chão
Vamos colorir o céu como dois balões vermelhos
Quero você entrelaçando o doce olhar com a paisagem
Foge menina, vai buscar a alegria que existe além do arco-íris
Vai menina, hoje o dia será um sonho eterno
Voa, voa menina! Abuse das asas de fada
Use a magia e faça da vida um faz de conta
Hoje é permitido sentir com a alma
Olhos fechados para a história que vamos criar
Era uma vez, menina....
Acordou
de um sonho aterrorizador, suava muito e o coração palpitava mais
que o normal. Olhou para o relógio, exatamente 4h45 da manhã.
Tentou fazer alguma relação com o horário, sempre a insônia
aparecia na mesma hora marcada, era mais pontual que os compromissos
diários. E nesses momentos a mente resgatava recordações e
promessas do passado, do tempo em que era criança e os sonhos povoam
a mente.
Fez uma
lista imaginária dos itens que não tinha alcançado. Não realizou
nada de tudo que havia planejado. Seguia a profissão que não
sonhou, morava na cidade não idealizada. Aliás, morar, se instalar
em um só lugar, não,não ela nunca quis isso. Tinha sonhando em
viajar por várias cidades, conhecer diversas culturas, as mais
diferentes pessoas. No entanto, a vida se apresentou de outra forma,
permitiu que ela conhecesse apenas três cidades: a que ela nasceu, a
da adolescência e a da vida adulta.
Utilizou
a mente para viajar alguns anos atrás, quando era uma criança e a
física preenchia os dias. Lembrou-se dos nomes de todos os
cientistas que pesquisou, da admiração por aqueles seres tão
inteligentes, fora dos padrões medíocres de QI.
Da janela
do quarto o vento chegou com um forte barulho, assustou e desejou que
fosse o fim do mundo se aproximando. Quem sabe assim as memórias
eram levadas para todo o sempre e a tortura mental acabava. Desejava
colocar um ponto final em toda aquela angústia, mas tinha criado um
parêntese gigante entre os sonhos e a realidade. Todas as madrugadas
quando o sono partia as falhas, as derrotas, os sonhos não
conquistados retornavam, invadiam o quarto, a mente e lhe roubavam a
cada visita um pouco de sua esperança.
O tic-tac
do relógio chamou atenção para olhar as horas novamente, 5h45 da
manhã. Já tinha se passado uma hora de passeio em lugares perdidos
com o tempo, mas presentes ainda nas lembranças. O sono tinha fugido
por completo, não ia retornar mais. Precisava adormecer por pelo
menos meia hora, assim poderia tentar enfrentar a realidade diária
com um pouco mais de força.
Lá fora,
no estacionamento do prédio surgiam os primeiros barulhos. Motores
de carros começam a serem ligados, passos largos e pássaros
cantando mostravam que o mundo continuava intacto. As pessoas
iniciavam a rotina diária e seguiam rumo ao trabalho. Que vida, meu
Deus, suspirou.
Seis
horas da manhã, o sol agora iluminava tudo. Atravessava a cortina e
clareava todo o cômodo. Junto com ele veio um choro de bebê do
apartamento vizinho. O silêncio do horário permitiu que ela
escutasse a voz doce de uma mãe que embalava a sua cria. Recordou do
interior onde nasceu, lá às moças se tornam mães no auge dos 20
anos. De certa forma elas cumprem a missão imposta pela vida.
Pensou nos relacionamentos amorosos que teve, poucos e nenhum muito
longo, não o bastante para planejar uma criança. Sentiu o quanto
era incapaz de lidar até mesmo com o amor. Mais um item para o livro
de falhas.
Meia hora
depois, levantou e foi até o banheiro. Ligou o chuveiro, escolheu a
opção inverno mesmo sendo verão. O calor da estação não aquecia
o frio do corpo, a alma permanecia congelada. Vinte minutos de banho
não eram o bastante para acordar do pesadelo das lembranças.
Enrolou-se na toalha e voltou para o quarto. Precisava escolher a
roupa para enfrentar o dia. Escolheu um vestido preto, a cor estava
ligada com áurea dela. Fria, sem vida e sem expectativas de algo
melhor. Um verdadeiro luto interno. Prendeu os cabelos, calçou uma
sapatilha, usou o mesmo perfume de sempre e abriu a porta. Estava
pronta para mais um dia de uma vida que nunca sonhou.
Com quantas palavras do Drummond eu descreveria a minha, a nossa vida?
Seria necessário suspirar quantas vezes por uma estrofe do Pessoa?
De
quais maneiras imaginárias morreria nos Olhos de cão Azul?
Quantas emoções necessárias para o Monólogo de Orfeu?
E quantas vezes eu precisaria catar a poesia entornada, jogada, pisada no chão para valer uma vida?
Mas a vida vale mesmo todos os versos do coração em desalinho do Poetinha?
Essa mesma vida vale um fim de tarde com as garças do Manoel de Barros?
Irá valer os encantos mágicos do Guimarães Rosa?
Ah, pobre Garrett se soubesse como a ausência dos sinais vitais me fazem
sonhar mais que o último suspiro da lembrança de um amor, de certo ele
teria economizado palavras.
Não sei de quantos poemas se faz uma vida. Mas para a morte basta a
falta de emoção diante do legado deixado por todos nossos esplêndidos
poetas.
Poderia me descrever em vários versos que não são meus. Em
poemas de grandes poetas e canções dos mais diversos artistas. Passaria horas
na bossa nova, dançaria um samba canção ou até mesmo um tango argentino.
Flutuaria em filmes paradoxalmente, sairia de um Tarantino direto para uma
comédia do Woody Allen e viveria um doce e melancólico romance do Almodóvar. E
aí, quem sou eu?
Posso ser a Capitu sem seu Bentinho, viajo até a Paris antiga
e sou Marguerite Gautie enlouquecendo o pobre estudante Armand Duval. Vou mais distante, e no lugar de ser a Psiquê
que corre todos os riscos impostos por Afrodite, sou a Perséfone. Costumo gostar
em alguns momentos do escuro que só Hades oferece.
Agora retorno para o ano de 2013, paro na frente do meu
espelho. Objeto que já foi mágico nos tempos que brincava de Alice Através do
Espelho. Hoje não vejo mais nenhum coelho e Rainha de Copas não passa de um dia
cinza. Porém, os dragões ainda existem. Eles continuam sendo temidos e o
Chapeleiro Maluco já não segura a minha mão.
Corro e volto para realidade, do meu lado um cobertor bem
quente me aquece do frio da minha memória que só Brás Cubas entenderia. No meio da bagunça mental, retorno ao meu
reflexo. Quem sou eu?
Um pouco de uma baiana que canta bem a canção de um dos maiores baianos ( You don't know me - Caetano Veloso)