quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A queda de Ismália


E toda vez que o coração aperta e a dor se torna insuportável de conviver, ela fecha os olhos e se joga de sua torre imaginária.  A queda é sempre demorada. Ao cair lentamente às angústias vão se dissipando. A cada segundo que a gravidade insiste em puxar o seu corpo, as dores surgem mais fortes, como se quisessem mostrar a realidade que ela nunca desejou enxergar.

As lembranças do sofrimento fazem o corpo ficar mais pesado. Agora a queda que era apenas um suicídio mental se torna um pesar mais que real. Dessa maneira, morre junto com sua áurea de menina. Cai de olhos fechados para não enxergar os fantasmas que a acompanham nos segundos agonizantes da queda.

E, quando finalmente chega ao chão, todos os medos estão expostos como feridas e hematomas nascidos com o tombo. Mesmo caída no asfalto frio, tenta erguer-se, recupera o fôlego e abre os olhos.

Levanta-se coberta de sangue e colhe o pobre coração jogado no chão. Limpa o corpo com as lágrimas, que os olhos sem brilho choram.

Anda alguns passos e avista a torre, a mesma da qual se atirou. Segue em direção do ponto luminoso, é a referência de qual caminho deve seguir.

Então, ela volta a fazer o mesmo caminho, mas de maneira inversa. Encontra pessoas diferentes no percurso, enxerga ipês amarelos, arco-íris e um cavalheiro com rosas lindas nas mãos.

Pobre moça lembra-se do quanto é bela a subida, mas sempre se esquece da tristeza da queda.




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Primavera sem elas



 

Lá se vai mais um ano. Melhor: e começa uma nova primavera. Talvez depois de alguns anos longe da narrativa de todas as manhãs do 12 de outubro, já tivesse  me acostumado em acordar sem as duas vozes relatando passo a passo da minha chegada. Mas, ainda sinto falta das duas se estapeando em palavras, só pra ver quem contava com mais detalhes a história da menina do olhão.

Tenho saudades de saber que olhei de maneira analisadora  para cada pessoa do quarto. Gostaria de ser disputada em carinhos, dengos, bolos, doces, arroz grudadinho e café.
Gostaria de ouvir a voz quase  trêmula da minha mãe, ao lembrar que tinha medo de me perder.  Sinto falta dos dois olhares doces, quase parecido com maçã com canela que as duas lançavam pra mim. Olhavam, suspiravam fundo, sorriam e diziam quase em coro: a nossa Fadinha cresceu!

Então, após anos distante disso tudo, usando uma camisola de florzinha e uma meia rosa para esquentar a solidão. Olho para o lado e vejo apenas uma gata preta que exige carinho. Levanto e faço mais uma xícara de café... Paro, reflito por alguns segundos, volto o olhar pra gata. Sorrio e digo: como sou feliz por ser filha e neta das duas mulheres que mais amam a eterna menina do olhão.