Revolucionária, feminista, Julieta lutava pelas causas sociais. Formou-se em engenharia ambiental e, desde então, envolvera-se com vários projetos de preservação ambiental. Utilizava o tempo livre para ajudar os necessitados. Isso quando sobrava algum tempo livre. Afinal, a moça atuava em cinco ONGs e, sempre que possível, corria para algum canil ou gatil a fim de matar a saudade dos bichos que ajudou a recolher das ruas.
Gostava de música brasileira, valorizava 100% o Brasil e sabia de cor a história das canções de Chico Buarque. Andava descalça na mata para manter o máximo de contato com a natureza. Na cidade, tinha o mapa dos locais com as frutas da estação. Assim, colhia acerola, pitanga, manga, goiaba, abacate e até limão das quadras de Brasília. Os amigos admiravam aquela criatura evoluída, dona de um brilho extra.
Do outro lado do universo de Julieta vivia Romeu, jovem ligado aos estudos tecnológicos. Aficionado na construção de sites, tudo que queria era continuar os estudos dentro de seu quarto escuro. Talvez, quem sabe, criar um aplicativo que facilitasse as tarefas cotidianas.
Romeu não tinha e nem buscava tempo para andar no parque ou mesmo na quadra onde vivia. Fazia tudo de carro mesmo, até as idas matinais à padaria da esquina. Nunca observava as árvores que surgiam na janela do veículo, decorando a paisagem. Não tinha muitos amigos. Aliás, dividia os dias apenas com o gato Stevie, único ser que lhe fazia companhia.
Julieta e Romeu viviam na era virtual, na qual os avanços tecnológicos produziam romances cibernéticos. Por mais que colecionasse encantos, Julieta não esbarrava com o amor. Foi então que, após algumas dicas de amigos, resolveu aderir ao aplicativo sucesso do momento, o tinder. Leu e releu os passos a passos do “app” e começou a oferecer curtidas (coração) e descurtidas (x) para os pretendentes mais próximos com gostos em comum.
Romeu, por sua vez, já utilizava o tinder há tempos. Tinha conhecido garotas muito semelhantes a ele: com o mesmo gosto para filmes, viciadas em séries, amantes do mundo virtual, dependentes do celular. Romeu não entendia o porquê das afinidades não influenciarem no batuque descompassado do coração. Tudo que queria era alguém diferente, nada muito igual a ele. Desejava uma pessoa que mostrasse o novo mundo.
Depois de muitas trocas de mensagens, Julieta resolveu aceitar um encontro com um rapaz do tinder, amante também do meio ambiente. Juntos, fizeram um piquenique no lago, compartilharam suas aventuras na natureza, colheram mangas e sorriram bastante das histórias parecidas que viveram durante a infância. Talvez aquele rapaz fosse a pessoa certa, mas Julieta já havia conhecido muitos outros parecidos com ela, tão parceiros que, no final, tornaram-se grandes amigos. Ninguém conseguia de fato aquecê-la com o calor da paixão.
Certo dia, Romeu decidiu se desligar do mundo virtual e explorar o universo que ia além da janela do quarto. Desejou fazer algo inusitado e lá se foi, a pé, pelas quadras da Asa Norte. O sol quente invadia cada parte de sua pele. Já nem se lembrava de como era boa aquela sensação. Nos tempos de menino, correra bastante em dias ensolarados, mas desde a adolescência não sentia aquele ardor na face. Andou quase quatro quilômetros, até o momento em que avistou Julieta de vestido florido, pés descalços, deitada na grama com um livro. Sozinha, ela contemplava o dia e sorria para o sol e para os pássaros que pousavam próximo ao pequeno pano jogado no chão.
Romeu ficou perplexo diante de tamanho encanto. Nunca tinha sentido seu coração palpitar tão forte! Respirou fundo, metabolizou toda a coragem que podia e se aproximou daquela moça que esbanjava felicidade. Naturalmente simpática com todos, Julieta retribuiu o "oi" tímido do jovem com um sorriso largo que escapou involuntariamente de seus lindos lábios.
Logo após Romeu se apresentar, convidou-o a sentar e a apreciar a brisa que balançava as folhas. Ficaram duas horas conversando, sem pressa, e se esqueceram da correria da vida. De repente o celular de Julieta tocou, alertando-a para os compromissos daquela tarde. Despediu-se com um beijo no rosto de Romeu, recolheu seu pano do chão, pegou as sandálias e seguiu descalça pisando na grama molhada da quadra.
Romeu ficou ali sentado, admirando a imagem da moça que sumia a cada novo passo que ela dava. Em seu momento de êxtase total, esqueceu que vivia uma vida limitada aos recursos tecnológicos. Não trocaram os números de seus celulares, não se adicionaram no facebook, twitter, instagram. Nem ao menos pegou o email da moça. “Como conviver com o medo de nunca mais esbarrar com tamanha beleza?”, suspirou com desencanto!
Foram longos dias de espera para os dois. Julieta guardava com carinho na memória aquele encontro mágico e Romeu rastreava em todas as redes sociais o perfil da criatura amada. Olhava foto por foto, mas não conseguia encontrar aquele rosto tão divino, sublime e mágico no espaço cibernético. Após alguns meses, entregaram-se ao desamor, a amargura tomou aqueles corações solitários que um dia almejaram encontrar suas almas gêmeas.
Julieta continuou lutando para melhorar o mundo. Fundou uma nova ONG e foi reconhecida pela ONU como referência em trabalhos sociais e ambientais. Romeu ficou rico criando aplicativos para novos modelos de celulares. Destacou-se por sua grande invenção, um programa que possibilitava aos usuários executar pequenas tarefas do cotidiano sem levantar da cama.
A falta de afinidades das redes sociais envenenou o amor do jovem casal. Julieta não era filha de um Capuleto e Romeu não herdaria a riqueza de um Montecchio, mas eles estavam condicionados a morrer com a falta de um sentimento real. Nasceram em uma era na qual os recursos tecnológicos facilitavam o cotidiano, mas assassinavam a magia dos encontros ocasionais.


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