quarta-feira, 20 de março de 2013

A vida que não desejou



Acordou de um sonho aterrorizador, suava muito e o coração palpitava mais que o normal. Olhou para o relógio, exatamente 4h45 da manhã. Tentou fazer alguma relação com o horário, sempre a insônia aparecia na mesma hora marcada, era mais pontual que os compromissos diários. E nesses momentos a mente resgatava recordações e promessas do passado, do tempo em que era criança e os sonhos povoam a mente.

Fez uma lista imaginária dos itens que não tinha alcançado. Não realizou nada de tudo que havia planejado. Seguia a profissão que não sonhou, morava na cidade não idealizada. Aliás, morar, se instalar em um só lugar, não,não ela nunca quis isso. Tinha sonhando em viajar por várias cidades, conhecer diversas culturas, as mais diferentes pessoas. No entanto, a vida se apresentou de outra forma, permitiu que ela conhecesse apenas três cidades: a que ela nasceu, a da adolescência e a da vida adulta.

Utilizou a mente para viajar alguns anos atrás, quando era uma criança e a física preenchia os dias. Lembrou-se dos nomes de todos os cientistas que pesquisou, da admiração por aqueles seres tão inteligentes, fora dos padrões medíocres de QI.

Da janela do quarto o vento chegou com um forte barulho, assustou e desejou que fosse o fim do mundo se aproximando. Quem sabe assim as memórias eram levadas para todo o sempre e a tortura mental acabava. Desejava colocar um ponto final em toda aquela angústia, mas tinha criado um parêntese gigante entre os sonhos e a realidade. Todas as madrugadas quando o sono partia as falhas, as derrotas, os sonhos não conquistados retornavam, invadiam o quarto, a mente e lhe roubavam a cada visita um pouco de sua esperança.

O tic-tac do relógio chamou atenção para olhar as horas novamente, 5h45 da manhã. Já tinha se passado uma hora de passeio em lugares perdidos com o tempo, mas presentes ainda nas lembranças. O sono tinha fugido por completo, não ia retornar mais. Precisava adormecer por pelo menos meia hora, assim poderia tentar enfrentar a realidade diária com um pouco mais de força.

Lá fora, no estacionamento do prédio surgiam os primeiros barulhos. Motores de carros começam a serem ligados, passos largos e pássaros cantando mostravam que o mundo continuava intacto. As pessoas iniciavam a rotina diária e seguiam rumo ao trabalho. Que vida, meu Deus, suspirou.

Seis horas da manhã, o sol agora iluminava tudo. Atravessava a cortina e clareava todo o cômodo. Junto com ele veio um choro de bebê do apartamento vizinho. O silêncio do horário permitiu que ela escutasse a voz doce de uma mãe que embalava a sua cria. Recordou do interior onde nasceu, lá às moças se tornam mães no auge dos 20 anos. De certa forma elas cumprem a missão imposta pela vida. Pensou nos relacionamentos amorosos que teve, poucos e nenhum muito longo, não o bastante para planejar uma criança. Sentiu o quanto era incapaz de lidar até mesmo com o amor. Mais um item para o livro de falhas.

Meia hora depois, levantou e foi até o banheiro. Ligou o chuveiro, escolheu a opção inverno mesmo sendo verão. O calor da estação não aquecia o frio do corpo, a alma permanecia congelada. Vinte minutos de banho não eram o bastante para acordar do pesadelo das lembranças. Enrolou-se na toalha e voltou para o quarto. Precisava escolher a roupa para enfrentar o dia. Escolheu um vestido preto, a cor estava ligada com áurea dela. Fria, sem vida e sem expectativas de algo melhor. Um verdadeiro luto interno. Prendeu os cabelos, calçou uma sapatilha, usou o mesmo perfume de sempre e abriu a porta. Estava pronta para mais um dia de uma vida que nunca sonhou.