segunda-feira, 5 de maio de 2014

Romeu e Julieta na era virtual

Revolucionária, feminista, Julieta lutava pelas causas sociais. Formou-se em engenharia ambiental e, desde então, envolvera-se com vários projetos de preservação ambiental. Utilizava o tempo livre para ajudar os necessitados. Isso quando sobrava algum tempo livre. Afinal, a moça atuava em cinco ONGs e, sempre que possível, corria para algum canil ou gatil a fim de matar a saudade dos bichos que ajudou a recolher das ruas.
Gostava de música brasileira, valorizava 100% o Brasil e sabia de cor a história das canções de Chico Buarque. Andava descalça na mata para manter o máximo de contato com a natureza. Na cidade, tinha o mapa dos locais com as frutas da estação. Assim, colhia acerola, pitanga, manga, goiaba, abacate e até limão das quadras de Brasília. Os amigos admiravam aquela criatura evoluída, dona de um brilho extra.

Do outro lado do universo de Julieta vivia Romeu, jovem ligado aos estudos tecnológicos. Aficionado na construção de sites, tudo que queria era continuar os estudos dentro de seu quarto escuro. Talvez, quem sabe, criar um aplicativo que facilitasse as tarefas cotidianas.

Romeu não tinha e nem buscava tempo para andar no parque ou mesmo na quadra onde vivia. Fazia tudo de carro mesmo, até as idas matinais à padaria da esquina. Nunca observava as árvores que surgiam na janela do veículo, decorando a paisagem. Não tinha muitos amigos. Aliás, dividia os dias apenas com o gato Stevie, único ser que lhe fazia companhia.

Julieta e Romeu viviam na era virtual, na qual os avanços tecnológicos produziam romances cibernéticos. Por mais que colecionasse encantos, Julieta não esbarrava com o amor. Foi então que, após algumas dicas de amigos, resolveu aderir ao aplicativo sucesso do momento, o tinder. Leu e releu os passos a passos do “app” e começou a oferecer curtidas (coração) e descurtidas (x) para os pretendentes mais próximos com gostos em comum.
Romeu, por sua vez, já utilizava o tinder há tempos. Tinha conhecido garotas muito semelhantes a ele: com o mesmo gosto para filmes, viciadas em séries, amantes do mundo virtual, dependentes do celular. Romeu não entendia o porquê das afinidades não influenciarem no batuque descompassado do coração. Tudo que queria era alguém diferente, nada muito igual a ele.  Desejava uma pessoa que mostrasse o novo mundo.

Depois de muitas trocas de mensagens, Julieta resolveu aceitar um encontro com um rapaz do tinder, amante também do meio ambiente. Juntos, fizeram um piquenique no lago, compartilharam suas aventuras na natureza, colheram mangas e sorriram bastante das histórias parecidas que viveram durante a infância. Talvez aquele rapaz fosse a pessoa certa, mas Julieta já havia conhecido muitos outros parecidos com ela, tão parceiros que, no final, tornaram-se grandes amigos. Ninguém conseguia de fato aquecê-la com o calor da paixão. 


Certo dia, Romeu decidiu se desligar do mundo virtual e explorar o universo que ia além da janela do quarto. Desejou fazer algo inusitado e lá se foi, a pé, pelas quadras da Asa Norte.  O sol quente invadia cada parte de sua pele. Já nem se lembrava de como era boa aquela sensação. Nos tempos de menino, correra bastante em dias ensolarados, mas desde a adolescência não sentia aquele ardor na face. Andou quase quatro quilômetros, até o momento em que avistou Julieta de vestido florido, pés descalços, deitada na grama com um livro. Sozinha, ela contemplava o dia e sorria para o sol e para os pássaros que pousavam próximo ao pequeno pano jogado no chão. 
Romeu ficou perplexo diante de tamanho encanto. Nunca tinha sentido seu coração palpitar tão forte! Respirou fundo, metabolizou toda a coragem que podia e se aproximou daquela moça que esbanjava felicidade. Naturalmente simpática com todos, Julieta retribuiu o "oi" tímido do jovem com um sorriso largo que escapou involuntariamente de seus lindos lábios.

Logo após Romeu se apresentar, convidou-o a sentar e a apreciar a brisa que balançava as folhas. Ficaram duas horas conversando, sem pressa, e se esqueceram da correria da vida. De repente o celular de Julieta tocou, alertando-a para os compromissos daquela tarde. Despediu-se com um beijo no rosto de Romeu, recolheu seu pano do chão, pegou as sandálias e seguiu descalça pisando na grama molhada da quadra. 

Romeu ficou ali sentado, admirando a imagem da moça que sumia a cada novo passo que ela dava. Em seu momento de êxtase total, esqueceu que vivia uma vida limitada aos recursos tecnológicos. Não trocaram os números de seus celulares, não se adicionaram no facebook, twitter, instagram. Nem ao menos pegou o email da moça. “Como conviver com o medo de nunca mais esbarrar com tamanha beleza?”, suspirou com desencanto!
Foram longos dias de espera para os dois. Julieta guardava com carinho na memória aquele encontro mágico e Romeu rastreava em todas as redes sociais o perfil da criatura amada. Olhava foto por foto, mas não conseguia encontrar aquele rosto tão divino, sublime e mágico no espaço cibernético. Após alguns meses, entregaram-se ao desamor, a amargura tomou aqueles corações solitários que um dia almejaram encontrar suas almas gêmeas.

Julieta continuou lutando para melhorar o mundo. Fundou uma nova ONG e foi reconhecida pela ONU como referência em trabalhos sociais e ambientais. Romeu ficou rico criando aplicativos para novos modelos de celulares. Destacou-se por sua grande invenção, um programa que possibilitava aos usuários executar pequenas tarefas do cotidiano sem levantar da cama.  
A falta de afinidades das redes sociais envenenou o amor do jovem casal. Julieta não era filha de um Capuleto e Romeu não herdaria a riqueza de um Montecchio, mas eles estavam condicionados a morrer com a falta de um sentimento real. Nasceram em uma era na qual os recursos tecnológicos facilitavam o cotidiano, mas assassinavam a magia dos encontros ocasionais.

                                        Medianeras: Buenos Aires na era do amor digital

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Não vá se perder por aí


Boa parte dos ideais que projetamos na infância são corrompidos antes mesmo da fase adulta. Quem não se lembra de um dia ter sonhado em ser super-herói e salvar o mundo? Tem aqueles que queriam ser médico e curar todos os seres amados.
Infelizmente a vida esfrega uma realidade desumana no nosso nariz, e passamos a nos condicionar ao ter, o ser fica esquecido em algum cantinho invisível do nosso íntimo.
A luta diária para conseguir um melhor salário, melhores condições e uma vida estável, leva embora os sonhos de criança.
Mas será que essa essência não pode ser resgatada?
Quando era pequena sonhava em fazer algo que atendesse a sociedade.Talvez sendo uma excelente professora,  ou quem sabe uma voluntária da ONU na  África.  Pensei também em ser uma escritora que doava os livros para semear conhecimento.
Em alguns momentos de silêncio,  desejei ser apenas minha mãe, acho que ela nunca soube disso. Pensava: se eu conseguir ser um pouco parecida com ela, não me perderei por aí.
A triste rotina e as trilhas escolhidas me afastaram desses objetivos. Entretanto, após observar as fantasias de infância da minha sobrinha de dois anos, notei que não é tarde para resgatar a criança  esquecida e comecei a reescrever o meu "faz de conta". Vou apertar o play dando prioridade a responder o seguinte questionamento: o meu trabalho atual é algo que oferece benefícios para o meio social?  Com ele estou ajudando o meu próximo? Ele me faz sonhar com um mundo igualitário?
Chegou o momento do meu resgate. Próximo passo: esbarrar com a menina que não via limites nos sonhos.




quinta-feira, 3 de abril de 2014

Balões

                           
                                 Decidiu  desenhar balões coloridos para voar da rotina cinza.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Não existe nada mais lindo que velar o sono da pessoa amada

                             



Não existe nada mais sublime que ouvir a respiração profunda do ser querido. Quando ele dorme o universo desacelera, fica em pausa para que eu contemple toda aquela maravilha.  Ele lá dormindo, e eu do outro lado querendo decifrar seus sonhos.     

Com que será que ele sonha? Será que em seu sono ele ganha asas e voa sobre o infinito?  Ou será que enquanto dorme me leva para o seu eu mais íntimo?
Ah, não sei onde vai parar o seu pensamento neste momento.  O que me interessa é estar aqui contando os seus suspiros e decorando cada detalhe do  seu corpo.
Enquanto ele repousa do meu lado, descubro mais uma pinta, mais uma marquinha das travessuras de infância.
Em seu sono profundo ele delira um pouco,  permaneço apenas observando. Algumas frases sem nexo escapam dos seus sonhos, e dormindo ele sorri. Um riso tão doce quanto uma canção de ninar.
Velo o seu sono e leio em Braille as deliciosas linhas que o lençol deixou em seu corpo.  Faço uma leitura precisa, encontro caminhos, desbravo universos imaginários construídos neste instante.
Em pensamento baixo, para não despertá-lo, agradeço a divindade por me permitir enxergar tanta beleza.  Suavemente passo meu dedo pelo seu belo rosto, detalhes que já sei de cor: como pode ser tão perfeito?  Fico a me perguntar.
Ele suspira fundo e desperta para o mundo. 
Ah, se tu soubesses o quanto fico encantada a te admirar, passaria mais horas sonhando.
Porque não existe nada mais belo que velar o teu sono, meu amor.




terça-feira, 18 de março de 2014

Moradia sonhada


Quero uma casa que tenha árvore
                        Pode ser um pé de laranja ou de seriguela                
Quem sabe de goiaba
Onde exista espaço para um balanço
Uma rede e potinhos de água
Aqueles em formato de rosa que adoçam o bico do beija-flor     
Quero uma janela com violetas e borboletas dançando com a brisa
Crianças brincando no quintal
Cachorros, gatos e todos os pássaros voando livres em nosso céu
Quero um jardim de rosas amarelas, de azaléias e camélias
Quero vaga-lumes brilhando com as estrelas
Noites enluaradas ou de luas escondidas
E no final, quero ter os teus braços para me fazer abrigo.
Dormir no teu peito e esperar o despertar da próxima fantasia.

terça-feira, 11 de março de 2014

"Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas."


Tenho uma mania boba de ficar presa em livros e filmes, vivo tão intensamente que me pego imaginando criando novos finais para eles. A prisão dessa vez é o filme “Her”, uma arte muito semelhante  da nossa realidade atual.
Theodore vive em futuro muito próximo do nosso, onde as pessoas interagem com os seus celulares, em um mundo cada vez mais individual.  Relacionamentos construídos com o auxílio de uma máquina, o que hoje em dia são as redes sociais.  Estamos tão condicionados a buscar pessoas mais adequadas ao nosso jeito de viver que nos interessamos primeiro pelo o que ela se mostra ser na internet. O calor humano, o toque vem depois.
Mas, isso também não pode ser considerado um tipo de envolvimento? Aguçar a nossa imaginação, provocar sensações que só podem senti-las por meio de um encontro físico, pode e tem sua grande importância para iniciar uma paixão. Ninguém se interessa pela falta de afinidades, são as semelhanças que nos permite desejar o outro.




Voltando ao filme, Theodore é alguém que está em um momento de rejeição total. Abandonado pela esposa, ele não consegue enxergar os encantos do mundo, até o momento em que Samantha aparece em sua vida. Quem nunca precisou de algo para se apegar e voltar reviver as emoções já esquecidas? Isso é do ser humano, nós vivemos em uma busca louca pela felicidade.  O problema é que Samantha não é um ser humano, mas sim um sistema operacional,  o contato entre eles é expresso através apenas de uma voz feminina.
Samantha é o que Theodore precisa, ou ela é o que ele acredita precisar no momento.  Com sua inteligência não humana, ela organiza, planeja, alegra e faz Theodore voltar a sonhar. O envolvimento é tão intenso que eles se apaixonam e se permitem viver um delicioso e surreal amor (pausa: qual o amor não tem uma dose de surrealismo?).  Mais uma vez o filme se aproxima da nossa real vida dura. Quando em meios aos devaneios, dividimos risos, medos com quem se faz mais próximo. 
O que prendeu ainda mais atenção foi o fato do personagem principal trabalhar em uma empresa que escreve cartas de amor. Mesmo com tanta tecnologia, a simplicidade ainda é presente e se torna a forma mais romântica de expressar os sentimentos.  Talvez seja isso, por mais que nos tornem reféns da tecnologia, as antigas demonstrações de afeto sempre causarão brilho nos olhos, fazendo o coração bater no descompensado mais que perfeito.

“Her” é uma metáfora do nosso refúgio diário. Por meio de uma sensibilidade ímpar nos permite enlouquecer de amor, sem receios de julgamentos.  Afinal, como foi dito no filme: “Apaixonar-se é uma loucura. É uma forma de insanidade socialmente aceitável”. 



segunda-feira, 3 de junho de 2013

A cobrança de Cronos



A intensidade em que os dias seguem
rouba-me os sentidos
Não apenas os cinco,
mas o meu sexto sentindo também é vencido pelo tempo
Não ouço, não falo, não vejo
Sigo a velejar nesse encontro do rio com o mar
E diante da pororoca,
Temo não saber onde a vida parar
Tudo cansa e pesa diante da pressa
Sigo sem os pés no chão,
Falta tempo para aprender a andar
Flutuo entre mundos desconhecidos
Em cada rosto encontro histórias que sonho relatar
Falta-me o tempo,
O ponteiro do relógio acelera
Já não faz sintonia com as batidas do coração
Em um tic-tac solitário 
O deus do tempo vem apressar
Rouba os dias, arrasta as noites...
Imploro pelo último sonho
E ele sufoca feito um assassino sem piedade o meu último suspiro
Cai o último grão da ampulheta
Foi-se a vida...








                                           "Tem tanta calçada pra se caminhar"