Acordou
de um sonho aterrorizador, suava muito e o coração palpitava mais
que o normal. Olhou para o relógio, exatamente 4h45 da manhã.
Tentou fazer alguma relação com o horário, sempre a insônia
aparecia na mesma hora marcada, era mais pontual que os compromissos
diários. E nesses momentos a mente resgatava recordações e
promessas do passado, do tempo em que era criança e os sonhos povoam
a mente.
Fez uma
lista imaginária dos itens que não tinha alcançado. Não realizou
nada de tudo que havia planejado. Seguia a profissão que não
sonhou, morava na cidade não idealizada. Aliás, morar, se instalar
em um só lugar, não,não ela nunca quis isso. Tinha sonhando em
viajar por várias cidades, conhecer diversas culturas, as mais
diferentes pessoas. No entanto, a vida se apresentou de outra forma,
permitiu que ela conhecesse apenas três cidades: a que ela nasceu, a
da adolescência e a da vida adulta.
Utilizou
a mente para viajar alguns anos atrás, quando era uma criança e a
física preenchia os dias. Lembrou-se dos nomes de todos os
cientistas que pesquisou, da admiração por aqueles seres tão
inteligentes, fora dos padrões medíocres de QI.
Da janela
do quarto o vento chegou com um forte barulho, assustou e desejou que
fosse o fim do mundo se aproximando. Quem sabe assim as memórias
eram levadas para todo o sempre e a tortura mental acabava. Desejava
colocar um ponto final em toda aquela angústia, mas tinha criado um
parêntese gigante entre os sonhos e a realidade. Todas as madrugadas
quando o sono partia as falhas, as derrotas, os sonhos não
conquistados retornavam, invadiam o quarto, a mente e lhe roubavam a
cada visita um pouco de sua esperança.
O tic-tac
do relógio chamou atenção para olhar as horas novamente, 5h45 da
manhã. Já tinha se passado uma hora de passeio em lugares perdidos
com o tempo, mas presentes ainda nas lembranças. O sono tinha fugido
por completo, não ia retornar mais. Precisava adormecer por pelo
menos meia hora, assim poderia tentar enfrentar a realidade diária
com um pouco mais de força.
Lá fora,
no estacionamento do prédio surgiam os primeiros barulhos. Motores
de carros começam a serem ligados, passos largos e pássaros
cantando mostravam que o mundo continuava intacto. As pessoas
iniciavam a rotina diária e seguiam rumo ao trabalho. Que vida, meu
Deus, suspirou.
Seis
horas da manhã, o sol agora iluminava tudo. Atravessava a cortina e
clareava todo o cômodo. Junto com ele veio um choro de bebê do
apartamento vizinho. O silêncio do horário permitiu que ela
escutasse a voz doce de uma mãe que embalava a sua cria. Recordou do
interior onde nasceu, lá às moças se tornam mães no auge dos 20
anos. De certa forma elas cumprem a missão imposta pela vida.
Pensou nos relacionamentos amorosos que teve, poucos e nenhum muito
longo, não o bastante para planejar uma criança. Sentiu o quanto
era incapaz de lidar até mesmo com o amor. Mais um item para o livro
de falhas.
Meia hora
depois, levantou e foi até o banheiro. Ligou o chuveiro, escolheu a
opção inverno mesmo sendo verão. O calor da estação não aquecia
o frio do corpo, a alma permanecia congelada. Vinte minutos de banho
não eram o bastante para acordar do pesadelo das lembranças.
Enrolou-se na toalha e voltou para o quarto. Precisava escolher a
roupa para enfrentar o dia. Escolheu um vestido preto, a cor estava
ligada com áurea dela. Fria, sem vida e sem expectativas de algo
melhor. Um verdadeiro luto interno. Prendeu os cabelos, calçou uma
sapatilha, usou o mesmo perfume de sempre e abriu a porta. Estava
pronta para mais um dia de uma vida que nunca sonhou.
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