Tudo
levava a crer que era mais um dia comum. O cheiro que vinha da janela
era o mesmo, o de terra molhada, normal para a época chuvosa do ano.
Levantou, tentou não ficar tentada pela cama quentinha, tomou um banho,
alimentou e acariciou a gata e deliciou-se com um rápido gole de café.
Como
o normal, costumava sair corrida, já que sempre se atrasava observando a
cor do céu pela janela, o som dos pássaros que a convidava para mais um
dia, ou simplesmente se rendia à carência felina do bichinho de
estimação.
Driblar
as horas, quando você observa além do que os cinco sentidos são capazes
de demonstrar, é uma tarefa um tanto difícil. Ela se queixava disso
sempre: “Poderia apenas enxergar com os olhos. Por que a
alma e o coração insistem nessa tarefa também? Por que o cheiro ofusca
os pensamentos e causa sensações que arrepiam cada poro do corpo?” Todos
os momentos ela se via no meio das emoções que nem todos conseguem
perceber. Tentava ser mais uma na multidão, mas sempre se
frustrava. Como se o mundo dela fosse além daquela bolha diária criada
por boa parte das pessoas.
Escolheu
a roupa que serviria de armadura para mais um dia normal em seu universo. Calçou a sapatilha e pegou os livros. Precisava ir para aula,
estava com muita pressa e o tempo acelerava a cada segundo, mais e mais. Na saída despediu-se da gata, abriu a porta. Ah, para sua surpresa
a gatinha resolveu brincar de pega-pega no corredor. Livros e bolsas
foram parar no chão. Pânico, tensão, aumentaram a correria de um lado para outro, até o instante em que o animal, por vontade própria, entrou feliz em casa.
Passado
o desespero, era hora de ir para parada. No pensamento desejava apenas
que o ônibus tivesse atrasado alguns minutos. Talvez os bons anjos
atenderam à prece. Conseguiu ir para o destino de todas as sextas-feiras
pela manhã. Mais uma aula iria assistir, a última daquela matéria.
No
ônibus sentiu o doce cheiro das árvores, da pista encharcada e deixou se
encantar pela brisa que entrava pela janela. Observou as pessoas no
mesmo transporte público. Olhares tristes e egoístas, presas em seus
problemas diários. De longe, um pássaro, talvez uma gaivota, dançava mostrando um espetáculo, onde o céu é um verdadeiro palco teatral.
Após
alguns minutos de viagem desceu na parada, não a do destino. Precisava pegar outro ônibus até a faculdade. Como de costume, não só os
seus olhos enxergavam, o coração viu um perigo invisível, o nariz sentiu
um cheiro ácido, a pele fez o registro da dor. A alma procurou mostrar
para as pupilas um rapaz que andava tranquilamente, mas com ajuda de um
bastão. Alguém que não podia enxergar com a retina, mas todo o corpo
daquele jovem trabalhava para ajudá-lo a ver o mundo.
Ela insistia em dizer aos sentidos que eles estavam errados, tudo parecia tranquilo. Mas
a alma e o coração ficaram inquietos, aceleraram as pernas. Como a se a
moça não tivesse domínio do seu próprio corpo. Com um impulso se aproximou rápido
do rapaz. Então, a mão que já não era controlada por ela, puxou-o para a
calçada. Em milésimos de segundos, salvou aquela pobre criatura dos
carros que passavam na pista.
O nome do ser que sorri feliz com a atitude da moça, não era importante saber. Afinal, a bagagem de vida dele continua intacta. Com uma áurea que iluminava o cinza do céu, ele agradeceu e só teve chance de dizer: “Hoje
o dia está bem movimentado. Que agitação é essa?”. Ela não soube
explicar nada para aquele rapaz, apenas olhava, observava com a alma carregada de certeza que ele enxergava mais que os motoristas de carros. Muito
mais que as pessoas que estavam no local. Ele também sentia a
energia dos que estavam a sua volta, viu que tinha gente estressada,
triste e rancorosa. Mas com um sorriso nos lábios e sem
nenhuma palavra disse o quanto à moça era encantadora. Ela agradeceu com outro sorriso, que ele enxergou com os olhos do coração.
Os
dois pegaram o mesmo ônibus, mas com destinos diferentes. Ela desceu
após duas quadras, precisava chegar logo na aula. Ele, só desceu 10
paradas depois. Nunca mais se encontraram, mas em uma sexta-feira nada
comum, descobriram outras pessoas, embora poucas, que enxergam além dos olhos.

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