segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Além dos olhos


 Tudo levava a crer que era mais um dia comum. O cheiro que vinha da janela era o mesmo, o de terra molhada, normal para a época chuvosa do ano. Levantou, tentou não ficar tentada pela cama quentinha, tomou um banho, alimentou e acariciou a gata e deliciou-se com um rápido gole de café.
Como o normal, costumava sair corrida, já que sempre se atrasava observando a cor do céu pela janela, o som dos pássaros que a convidava para mais um dia, ou simplesmente se rendia à carência felina do bichinho de estimação.
Driblar as horas, quando você observa além do que os cinco sentidos são capazes de demonstrar, é uma tarefa um tanto difícil. Ela se queixava disso sempre:  “Poderia apenas enxergar com os olhos. Por que a alma e o coração insistem nessa tarefa também? Por que o cheiro ofusca os pensamentos e causa sensações que arrepiam cada poro do corpo?” Todos os momentos ela se via no meio das emoções que nem todos conseguem perceber.  Tentava ser mais uma na multidão, mas sempre se frustrava. Como se o mundo dela fosse além daquela bolha diária criada por boa parte das pessoas.
Escolheu a roupa que serviria de armadura para mais um dia normal em seu universo. Calçou a sapatilha e pegou os livros. Precisava ir para aula, estava com muita pressa e o tempo acelerava a cada segundo, mais e mais. Na saída despediu-se da gata, abriu a porta. Ah, para sua surpresa a gatinha resolveu brincar de pega-pega no corredor. Livros e bolsas foram parar no chão. Pânico, tensão, aumentaram a correria  de um lado para outro, até o instante em que o animal, por vontade própria, entrou feliz em casa.
Passado o desespero, era hora de ir para parada. No pensamento desejava apenas que o ônibus tivesse atrasado alguns minutos. Talvez os bons anjos atenderam à prece. Conseguiu ir para o destino de todas as sextas-feiras pela manhã. Mais uma aula iria assistir, a última daquela matéria. 
No ônibus sentiu o doce cheiro das árvores, da pista encharcada e deixou se encantar pela brisa que entrava pela janela. Observou as pessoas no mesmo transporte público. Olhares tristes e egoístas, presas em seus problemas diários.  De longe, um pássaro, talvez uma gaivota, dançava mostrando  um espetáculo, onde o céu é um verdadeiro palco teatral.

Após alguns minutos de viagem desceu na parada, não a do destino. Precisava pegar outro ônibus até a faculdade. Como de costume, não só os seus olhos enxergavam, o coração viu um perigo invisível, o nariz sentiu um cheiro ácido, a pele fez o registro da dor. A alma procurou mostrar para as pupilas um rapaz que andava tranquilamente, mas com ajuda de um bastão. Alguém que não podia enxergar com a retina, mas todo o corpo daquele jovem trabalhava para ajudá-lo a ver o mundo.
Ela insistia em dizer aos sentidos que eles estavam errados, tudo parecia tranquilo.  Mas a alma e o coração ficaram inquietos, aceleraram as pernas. Como a se a moça não tivesse domínio do seu próprio corpo. Com um impulso se aproximou  rápido do rapaz. Então, a mão que já não era controlada por ela, puxou-o para a calçada. Em milésimos de segundos, salvou aquela pobre criatura dos carros que passavam na pista.
O nome do ser que sorri feliz com a atitude da moça, não era importante saber. Afinal, a bagagem de vida dele continua intacta.  Com uma áurea que iluminava o cinza do céu, ele agradeceu e só teve chance de dizer:  “Hoje o dia está bem movimentado. Que agitação é essa?”. Ela não soube explicar nada para aquele rapaz, apenas olhava, observava  com a alma carregada de certeza que ele enxergava mais que os motoristas de carros.  Muito mais que as pessoas que estavam no local. Ele também sentia a energia dos que estavam a sua volta, viu que tinha gente estressada, triste e rancorosa. Mas com um sorriso nos lábios e sem nenhuma palavra disse o quanto à moça era encantadora.  Ela agradeceu com outro sorriso, que ele enxergou com os olhos do coração.
Os dois pegaram o mesmo ônibus, mas com destinos diferentes. Ela desceu após duas quadras, precisava chegar logo na aula. Ele, só desceu 10 paradas depois. Nunca mais se encontraram, mas em uma sexta-feira nada comum, descobriram outras pessoas, embora poucas, que enxergam além dos olhos.


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